
setembro 26, 2009
setembro 6, 2009
das cinzas…
Tentando não ser mais tão relapsa com o blog e retomar as atividades.
Metroviárias
É dia ainda na noite
que traz a chuva
dos trens enxurrados de gente
…………………..
Vendo tudo de cima
deve imaginar a cadência suave
sobre si mesmos
dos peitos das moças, deitados
quando não traz um livro pra ler.
…………………..
Quis sentar
- os pés, dor
as ancas, dor,
Mas nem o pai sabia do bebê
e a velha chegou
antes.
agosto 23, 2009
Sem muitas desculpas…
Não há muito o que justifique a falta de posts por mais de um mês, além de “preguiça” e “falta de consideração”.
O início de agosto, apesar de não ter aulas, foi atarefado, e agora também ando ocupadíssima. Talvez semana que vem melhore (apesar de que já será setembro e… eita vergonha de só deixar registrado 1 post aqui em agosto!!)
De qualquer forma às vezes ainda dá tempo de arrotar uns versos no meio de tanta pressa. Esse é de julho, mas tá valendo.
Pouco se explicou
Ficou uma cicatriz de cola
Na parede em que preguei
a tua poesia.
Ainda se vêem as marcas
nos meus olhos
de cada curva de cada letra
que talhamos às pressas.
Resta a meia-luz,
o pó
e algumas pombas um pouco gordas.
(Descobri essa semana as exposições do Centro Cultural do Banco do Brasil, lá no Centro… hmm! )
julho 9, 2009
Poesia em tempo de fome
Começou.
Enfim, está aí o banquete de quem tem fome de poesia. Fui hoje à Casa das Rosas, na Avenida Paulista, tentar degustar um naco da FLAP – cheguei atrasada para a Mesa 1, fiquei para a palestra sobre poesia concreta com Frederico Barbosa, que queria muito assistir.
Foi como uma lâmpada pra quem não teve contato totalmente ao acaso com muito mais de três ou quatro poemas concretistas (ou erroneamente chamados de concretistas, como vim a entender). Em resumo, eu gostei.
Três flashes:
Disparo 1
Por E.E.Cummings (1894 – 1962)
l (a
le
af
fa
ll
s)
one
l
iness
Disparo dois
Por Haroldo de Campos (1929 – 2003)
- “Saber viver, saber ser preso, saber ser solto”…
Pausa. Alguns murmúrios ansiosos na platéia.
- Que é “solto”?
- “Libre”.
Sorriso, silêncio. Retomam o poema.

Disparo III
Por Haroldo de novo, dono da casa.
poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia
poesia em lugar do homem
pronome em lugar do nome
homem em lugar de poesia
nome em lugar de pronome
poesia de dar o nome
nomear é dar o nome
nomeio o nome
nomeio o homem
nomeio a fome
no meio a fome
Obrigada pela FLAP. Continuem soprando poesia nos nossos ouvidos pra nos bagunçar os cabelos. É bom.
(E,quem não foi, tome vergonha na cara que ainda dá tempo de participar. Os eventos vão só até dia 14/07. Consultem a programação no blog da FLAP).
julho 3, 2009
Figuras Sonoras
Interrompemos a programação de prosa e poesia para falar sobre alguma coisa absolutamente inusitada!
Li hoje de manhã sobre uma experiência deveras curiosa, da qual nunca havia ouvido falar. Não é uma novidade, visto que foi feita pela primeira vez por um sujeito que morreu em 1827… De qualquer forma, não sei se é tão conhecida.
No livro Sobre Verdade e Mentira, de Nietzsche, são citadas as figuras sonoras de Chladni. Segue abaixo um vídeo da experiência, na qual alterando a frequência e amplitude das vibrações provocadas por ondas sonoras em uma placa de metal (pode ser também de vidro) se faz com que grãos de areia sobre esta placa se aglutinem de diferentes maneiras criando desenhos variados.
http://www.youtube.com/watch?v=wMIvAsZvBiw
O que isso tem a ver com Nietzsche: ele afirma que, da mesma maneira como as figuras de Chladni editam cópias dos sons em outro meio (a areia, na experiência), as palavras se relacionam com as coisas, através de um estímulo nervoso em imagem, e depois em som.
Este post talvez seja mais inconclusivo que todos os outros porque descabido e deslocado, e peço desculpas por isso… como desenhista, ex-futura-física e pretensa escritora, resolvi compartilhar a pequena descoberta. Voltamos então à programação normal nos próximos posts.
julho 1, 2009
Possibly Maybe
Até que eu não deixei o blog tão abandonado em junho, apesar da correria =) Agora que é julho não há mais desculpas, além da letargia que acomete os dedos nas férias, de vez em quando, incapacitando os coitados de escreverem alguma coisa (que preste).
Ao que interessa:

Nota: a exposição vai somente até 12 de julho, então corram. Entrada R$15, meia R$7.
The Unending Gift
Um pintor prometeu-nos um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como outras vezes, a tristeza de compreender que somos como um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei em um lugar prefizado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da casa; agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma e qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal.)
Do livro Elogio da Sombra, de Jorge Luis Borges, que comprei em um sebo semana passada – ou retrasada, talvez. Fiquei um bom tempo tentando identificar as lombadas desfocadas da foto da contracapa:

Pouco se explicou
Ficou uma cicatriz de cola
Na parede em que preguei
a tua poesia.
Ainda se vêem as marcas
nos meus olhos
de cada curva de cada letra
que talhamos às pressas.
Resta a meia-luz,
o pó
e algumas pombas um pouco gordas.
…………………..
junho 15, 2009
Scelte
Descompromisso
Este contentamento egoísta
(que escondi)
não deveria
se travestir de amor.
Deixava sair
da boca
da pena
algumas palavras
sem intenção
(de nada).
Cinco -
- Ana, acho que hoje te vi em um sonho – anunciou, suspendendo por um instante o silêncio qual poeira que se levanta sob passadas lentas.
Os dedos emaranhados nos cabelos hesitaram; antes distantes, os olhos de João viraram-se para ela:
- Que bobeira! É só um sonho.
- Pode não ser, você não deveria rir… lembro que me disse algo importante. Só não sei o que foi.
Seu sorriso voltou-se para o outro lado novamente, onde fingia observar os pássaros que comiam insetos no chão, perto do banco onde estavam. Ajeitou a cabeça sobre o colo de Ana e esta perguntou como se podia saber se algo era importante sem saber o que era. A obviedade da resposta corou-lhe as bochechas, curvando um pouco mais o riso do garoto.
- Eu sinto, e isso basta. Sei que era sobre alguém, mas quanto mais penso nisso, com mais rapidez as memórias me fogem. Não é estranho?
Talvez fosse sensato não cutucar o que era inexplicável. Por outro lado, a curiosidade sempre foi um ser cheio de dedos; a curiosidade bagunçava os cabelos sem pedir licença, invadia suas veias, sem pedir permissão. Aquele sangue pulsaria na artéria de sua têmpora esquerda, que cortava agora a serenidade das fontes.
- Você é maluco, João. Deve estar apaixonado.
Esta afirmação tinha sido bastante insensata, já que possivelmente cutucava qualquer coisa inexplicável; ou, ainda, despropositada, embora Ana cultivasse em segredo uma admiração pela capacidade de João arrebatar-se com paixões. Pensava isto não somente em relação a arroubos violentos e ardentes de afeto – as perturbações de seu ânimo eram, em geral, deveras vigorosas.
Cada uma das incertezas, das imprecisões, das estranhezas, dançavam em turbilhão que, ao baixar da poeira, vinha se acomodar em seu peito, deixando ali um amargor insosso cujo sentido desconhecia.

Vou pra Europa a bordo de uma árvore.
junho 13, 2009
achei.num.papel
(Ai, que anticlímax.)

Minha cabeça anda espiralando
Quando mastigo os teus
motivos idiotas.
Achei que fosse
mesmo irresponsável
meio egoísta
Mas era balela.
Essa implicância
só tem fundamento
Quando eu paro
de dizer o que senti(r).
Microespontâneo descomedido,
isso nem é um verso
nem faria Teresa sorrir.
junho 12, 2009
doze
Dentre as poesias que tinha escolhido para os cartazes da AL para o dia 12 de junho, que é dia dos namorados e dia do correio aéreo (!?), havia o Soneto 23 do livro Sonetos Luxuriosos de Aretino, o Soneto da Fidelidade de Vinícius de Moraes e Tenho saudades de uma dama de Drummond, além deste soneto de Florbela Espanca:
QUEM SABE?!…
Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino:
Beber o fel amargo em luminosa taça,
Chorar amargamente um beijo teu, divino,
E rir olhando o vulto altivo da desgraça!
Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito;
Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te
Se um sonho pode andar por todo o infinito,
De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?!
Demais, nem eu talvez, perceba se o amor
É este perseguir de raiva, de furor,
Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais.
Ou se é então a fuga eterna, misteriosa,
Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa!
……………………………………..
Por me fugires, sim, talvez me queiras mais!

…só pra te lembrar que eu te amo.
junho 8, 2009
Juntando
Primeiro, juntando pedaços desconexos pra fazer algum sentido.
Segundo, ‘juntando’ para uma comemoração sutil de dois pares que eu gosto muito e que juntaram as escovas na última semana (sintam-se importantes! estou torcendo por vocês. hahaha.).
Terceiro, juntando coragem pra enfrentar mais oito provas da faculdade pra terminar bem o semestre!
Enumerados os motivos, voltamos ao primeiro:
I
Vinde ao belo espetáculo!
Venham todos, senhores!
Há uma persona de algodão – (pura!)
À beira de esfacelar-se!
II
Esta sombra costurada aos teus pés
Enrosca-os na cortina;
Alguns pierrôs tripudiam calados
Sobre um tapete de mentira.
III
Emudeço nas rugas que a máscara esconde
Da serenidade mais aflita;
Tabaco e talento não rendem
- contudo a persona pegada à cara
Aceita buquês de ordálias e cravos brancos.
IV
Instante assim blue,
Frustralogrados…
Prende o riso, perde o fôlego,
Perdem-se em tudo presos em nada:
Platéia malemolente, inspira.
Esperavas que os anseios perdurassem?
Amanheço ainda no aguardo
Do próximo ato:
- Voltemos às flores e falas!
V
(Contudo, naquele dia,)
Qual chumaço de algodão
Aquela calma translúcida pousava nos ouvidos,
Em clima de más notícias.
Pós-palco, noite quente, noite vazia,
Noite boa de se preencher
Com dominó e vinho e riso.
Não fossem teus tropeços no tablado da vida
A queda seria mais suave
(Talvez haja escape
Na troca ocasional das tuas faces gregas.)
VI
Experimentos na cena 21:
A trupe degusta essa troca das faces
- suas línguas percorrem cansadas
Aquele estampido d e s a g r a d á v e l
Dos improvisos mal improvisados
E desiste de ater-se a tudo.
VII
Troco as estripulias dos pazzos de Veneza
Por alguns risos estáticos,
descafeinados, tremidos,
Transtornados pelo furor
Da despedida do primeiro ato.
VIII
Pícaros invadem o tablado
Com sede da poeira que levanta
Sob os passos e rodopios.
(Eles dançam).
A sede lambe a pele estirada
Sobre os ossos, sobre o palco,
Até desnudar-lhes a alma.
IX
Parece só – ainda que todos
vejam o ballet colorido
respingado à sua volta.
A alma exposta; expande-se, espanta-se -
Perde a linha e se intimida
Ante o improviso.
X
Verte uma gota das janelas de sua alma cansada.
Não há tédio ou melancolia,
Mas a sonolência serena
Dos sentimentos gastos.
(A platéia pisca e se pergunta:
- Então era isso? )
XI
Mescla-se o que é
E o que seria;
A persona não é mais
que pó branco sobre as faces:
Cai por terra,
soa o apito,
E as cortinas abrem.
………………………………
O que me faz lembrar: se gostas de feijão e gostas de quindim, quindim combina com feijão? – que fique claro que aplica-se a (1) e, de forma alguma, a (2).